quinta-feira, 6 de setembro de 2007

O que é a Astrologia Clássica? ( parte II)

Texto de Giuseppe Bezza

Tradução de Daniela Scheifler - Baile no Céu

Os homens antigos do inicio – afirma Aristóteles – compreenderam essas coisas na forma do mito, e nesta forma as transmitiram aos que vieram depois, dizendo que esses corpos celestes são divindades, e que a divindade circunda toda a natureza. O resto foi agregado depois, sempre na forma de mito, para persuadir os demais, e foi empregado a fim de impor obediência à lei e por razões de ultilidade. Dizem de fato que aqueles seres divinos são similares aos homens e aos animais, e outras coisas acrescentam, que derivam deles ou são a eles muito similares. Se, todavia, separásssemos essa mistura e compreendêssemos somente o conteúdo originário daquelas crenças, ou seja, considerar divindade as substâncias primeiras, devemos então convir que eles falavam em modo divino.(Metaphysica 1074b). Quem são esses homens antiquíssimos palaitatoi anthrôpoi?. São como lemos em Homero, os habitantes da cidade de Troia (Il. 11,166) ou os contemporâneos de Servio Tullio (Plutarco De fortuna Rom. 323e)? A nós parece aqueles palaitoi anthrôpoi (antigos homens) de que falou Platão que inventaram os nomes das coisas (Crat. 441b), palaioi (antigos), exatamente porque pertencem ao tempo do mito e não podem ser colocados em nenhuma dimensão temporal.

Se quiséssemos ao contrário nos perguntar quando aparece pela primeira vez no Ocidente um sistema completo de previsão fundada sobre fenômenos astronômicos, podemos dizer que Berosso, Epigene e Critodemo são os primeiros astrológos a nós conhecidos. Se considera hoje que Critodemo haja precedido o legendário Petosiride, cuja vida foi transportada pelos filólogos do sec VII ao I secolo a.C., enquanto ao contrário se estima que Critodemo tenha vivido no sec. III a.C.; em tal modo eles mesmos Antioco d'Atene, Prassidico, Timeo, Sarapione Alessandrino, Teucro seriam contemporâneos do sacerdote egípcio.

Mas aquilo que aqui nos importa sublinhar é que os astrólogos da idade helenística são normalmente claros, entre os seus predecessores, os archaioi e os palaioi. Os primeiros foram aqueles que iniciaram a manipular a astrologia e os segundos aqueles que a inventaram e a nominaram pela primeira vez. Dos primeiros se conhece o nome e a vida terrena, mas os segundos são envoltos no mito, são uma dimensão atemporal, como o Hermes das mil direções, « a quem nossos antepassados dedicaram as invenções da sua cultura » (Giamblico De mysteriis 1,1; cfr. 8,4); são aqueles que primeiro estabeleceram os nomes da arte, como por exemplo o nome de agathodaimôn (bom gênio) ao décimo primeiro lugar (V. Valens p. 135.2 Kroll), ou seja, os nomes e os atributos que remontam a Hermes Trimegisto (Rhetorio, Cat.Cod.Astr.Graec. VIII,IV 126-174). Temos um exemplo em Efestione de Tebas: Panchario não está entre os archaioi, nem entre os palaioi, uma vez que é seu contemporâneo, mas Porfirio (I, 157.1 Pingree), Antigono di Nicea (I, 162-163), Doroteo (I, 263.10-11), os sábios egípcios que o precederam (I, 258.19) estão entre os archaioi. Palaioi ao contrário, foram os primeiros a observar as figuras das estrelas (Ptolomeo Quadr. 1,2 Boll-Boer 8.9), a natureza dos planetas (ibid. 1,4 B.B. 17.8; 1,5 B.B. 19.24) e das estrelas inerrantes (ibid. 1,10 B.B. 30.7), palaios é o manuscrito que Ptolomeo mantém entre as suas mãos (ibid. 1,21 B.B. 49.14).

Para os astrólogos helenísticos posteriores ao século II os archaioi são então os seus predecessores históricos. Estes, por sua vez, fundam a sua doutrina lembrando aos palaioi (Haephestio I,120.25), entre os quais uma figura aparece primeiro, aquela de Petosiride, palaios por antonomásia (cfr. scholia in Cl. Pto. quadr. Wolf p.111). Estamos portanto de frente a três diversas épocas da Astrologia: os antigos, os veteranos, os novos. Entre os novos uma figura se destaca, não só pela perfeição da sua doutrina, ou pelo seu preciso conhecimento dos movimentos, mas sobretudo por uma nova concepção e um novo método de arte da previsão astronômica: Claudio Ptolomeo, no segundo capitolo do terceiro livro do Quadripartitum renuncia ao modo antigo (archaios) da previsão, que consiste na «qualidade conjunta de todos ou da maior parte dos astros e se alguém quisesse completá-lo com cuidado se revelaria multiforme e quase infinito» (B.B. 109.5-7).

Esta forma de predição é aquela dos antigos Egípcios os quais de fato «seguiam um método cheio de configurações particolares, sujeitas a parecerem infinitas, difíceis de entender e compreender» (In Cl. Pto. enarrator ignoti nomiis Wolf p.89).
Estes diversos modos do proceder (agôgai) dos antigos, difíceis de se desvincular, enigmáticos, como declarava V. Valente (p. 242.20 Kroll), constituem para os novos astrólogos a tradição.

Diante disso, muitos procuram explicá-la, como Vettio Valente, deixando, todavia, a arte no rastro de uma secreta sabedoria. Não abandonar o proceder da tradição significa conservar a sua riqueza; significa ainda falar a sua lingua, que não é aquela dos filósofos, dos naturalistas, dos homens de ciência. Diversa foi a atitude de Ptolomeo; ele não exprime uma recusa clara e global à tradição, ao contrário: os termos técnicos que ele usa são os mesmos dos antigos e o objetivo de Porfirio na sua introdução é de explicá-los aos contemporâneos (isag. Wolf 181). Mas ele é filósofo e cientista e prefere seguir uma via natural, interpretando «com um método pertinente à filosofia» (quadr. 1,1; Boll-Boer 3.6-7) as configurações e os movimentos dos astros que o conhecimento da astronomia nos oferece, ainda que isso devesse comportar um parcial abandono da tradição. ( continua)

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